segunda-feira, 14 de março de 2011

Primeira Bifurcação

- Deja-vu! - exclamou Lucas em seu pensamento, no exato momento que sua namorada entrou no carro. Márcia colocou a bolsa no colo, fechou a porta e comprimentou-o.
- Nossa, acabei de ter uma daquelas sensações onde temos certeza de já ter vivido aquele momento!
- Mesmo? Sei como é... acontece comigo às vezes. Muito estranho mesmo.
Lucas deu então a partida em seu Corolla, e deixaram a Alameda Santos.

Estavam juntos há 2 anos. Uma paixão avassaladora, daquelas que a gente sente uma vez só na vida. Ambos na faixa dos 30, procuravam agora um novo apartamento para morar. Apesar de não ser o melhor lugar para se viver, estavam convencidos de que ficar em São Paulo por mais alguns anos, pelo menos até que estivessem casados, era o melhor a se fazer.

O Sol já não aparecia mais no horizonte. Hora do rush na capital. Obviamente, trânsito para todos os lados. Lucas sabia que, se fosse pela Avenida Nove de Julho, complicaria ainda mais as coisas. Decidiu descer a Pamplona, rumo à Avenida Brasil. Talvez encontrasse menos trânsito.

Mas não havia chovido naquela tarde. Tardes de verão em São Paulo pedem chuva. E caos. E alagamentos, e trânsito. Mesmo para aqueles que estão acostumados, cada vez que acontece, é como se fosse a primeira. Não adianta ter o rádio informando as melhores rotas. Não adianta nem o GPS, ou esperar a chuva passar. No final das contas, o que vale mesmo é ligar a música, relaxar e esperar. Talvez se naquela tarde a chuva os tivesse visitado, os acontecimentos que estariam por vir pudessem aguardar mais alguns meses, ou anos. Mas a chuva não veio. E, ainda que muitos não acreditem que todos temos um destino pré-definido, e que pequenas coisas mudam as rotas de nossas vidas, muitas vezes o que a vida nos mostra é que, diante de tantas possibilidades em uma teoria caótica que a física não consegue explicar muito bem, os acontecimentos daquela tarde foram resultado de uma cadeia de eventos mínimos, mas fatais.

- Como foi o seu dia? - perguntou a moça.
- Foi bom. Conseguimos fazer a instalação dos dois servidores principais. Agora é ver se vão aguentar a demanda.
- E ficaram satisfeitos? - Márcia voltou a perguntar.
- Sim, bastante satisfeitos. A gente já tem um nome bom no mercado, mas ainda assim é sempre uma expectativa para ver qual vai ser a reação do cliente. E o seu dia?
- Foi cansativo, sem dúvida. Mas acho que finalmente vamos conseguir aquela credencial para o show do Caetano. Estava difícil, sabe? Muita gente tentando. Enfim, vamos conseguir algumas fotos, e uma entrevista também.
- Ótimo. Então temos que comemorar! O que acha do Ráscal?
- Huum... faz tempo que você não me leva lá, né? A última vez foi quando você me pediu em namoro.
- Verdade. Vou voltar então!

E foi assim que o rumo do casal mudou mais uma vez, naquela tarde. Na altura da Alameda Lorena, voltou e subiu a Campinas. Em mais alguns minutos estavam a alguns metros do estacionamento do restaurante.

Lucas era gerente de TI em uma empresa de informática. Com sede na Avenida Paulista, atendiam grandes bancos e entidades financeiras. Sua experiência de mais de 15 anos na área e uma grande dedicação fizeram dele um ótimo gerente. Estava nesta vida pela paixão aos múltiplos monitores, telas de fundo preto e caracteres brancos que não faziam o menor sentido para a maioria das pessoas, pelo menos 3 teclados na mesa e pizza. Muita pizza. Mas sabia que queria mais. Sabia que havia algo errado com aquilo, e que o caminho que precisava seguir não era aquele. Pelo menos não daquela forma.

Márcia era uma fotógrafa e jornalista. Sócia de mais outras 2 jornalistas em uma pequena agência na Alameda Santos, sabia que cedo ou tarde teria de lidar com uma separação. Fabiana, uma das sócias, já não colocava mais o empenho necessário no negócio. E as outras duas sabiam que aquela situação era insustentável. Diante da dificuldade de se impor no mercado na grande capital paulista, ou se era excelente no que se fazia, ou simplesmente deixava-se de existir. E deixar de existir definitivamente não estava nos planos desta guerreira.

- Chegamos - disse o rapaz.

Desceram do carro e entregaram as chaves ao manobrista. Entraram no saguão do restaurante, e foram atendidos por uma simpática garçonete, que os levou a uma mesa para dois, com uma vela acesa no centro.

Decidiram começar com um vinho. O melhor que o restaurante tivesse, segundo o pedido de Lucas. O garçom se apresentou, anotou o pedido, e se retirou.

- A gente podia ir lá pra casa hoje! - disse Márcia.
- Hm... não sei não. Seu irmão não vai muito com a minha cara.
- Bobagem, querido. Ele só tem um pouco de ciúme. Você sabe, você também tem uma irmã. E ele nem vai estar lá hoje. Parece que vai ter um show de rock ou algo assim.
- Ele continua tocando?
- Claro que sim. Não pára em uma mesma banda por mais de 6 meses, mas está sempre tentando conseguir algo nesse meio. Já falei pra ele que enquanto ele não conseguir se relacionar com as pessoas certas, vai ser muito difícil chegar lá. Enfim, não adianta falar muito, então só espero que ele continue animado pelo menos.
- Eu me lembro quando era comigo. Realmente era muito difícil. Mas dificuldades não assustam jovens de 20 anos e um ideal. Nunca. Acho que deveriamos ter esse espírito por toda a vida.
- Pois eu acho que você ainda tem. Só que para outros propósitos.
- Talvez sim, talvez não.

E Lucas sorriu para o garçom que trazia o vinho, e as taças. Serviu os dois, anotou o pedido (um filé para Lucas, raviolli para Márcia), e se retirou mais uma vez.

O jantar transcorreu sem maiores novidades. Conversaram mais um pouco sobre as opções de piso que teriam para a cozinha e para o banheiro do apartamento. Lucas mantinha sua preferência pelo branco, clássico, e a idéia de que a cor ajudaria a deixar o ambiente mais claro e limpo. Márcia insistia que o branco seria desagradável, e não combinaria com os eletrodomésticos, já que branco era o que ela menos queria para os aparelhos da cozinha. Decidiram por pensar mais um pouco, visitar novas lojas e experimentar novos tons.

O jantar terminou por volta das 21h. Satisfeitos, ambos deixaram a gorjeta para o garçom (sim, cada um deixou a sua), e aguardaram até que o manobrista trouxesse o carro. Entraram e partiram.

Finalmente na Avenida Brasil, curtiam o rock clássico que tocava na rádio. A essa altura o trânsito já fluía normalmente. Apenas uma vez o semáforo os impediu de seguir adiante naquela noite. O suficiente.

O carro pára no sinal vermelho. Dois homens se aproximam pelo lado esquerdo do Corolla. Um som metálico soa através do vidro. Lucas ouve Márcia gritar em pânico ao seu lado. Sabia que não deveria reagir. Não iria. Abre o vidro. Os homens pedem pra sair do carro. Lucas pisa no freio. Nervoso e tremendo, seu pé escorrega. Alcança o acelerador. O carro parte de forma brusca. 2 tiros. Escuro.

5 comentários:

  1. você vai postar aqui diariamente né?

    fiquei curioso!

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  2. Texto maravilhoso!!

    Por mais que eu nunca tenha andado em uma rua de São Paulo, me senti no banco de trás daquele carro!! =)

    Adorei. PARABÉNS!!

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